Nós, cristãos e cristãs, vivemos com a consciência de sermos peregrinos no mundo. Aqui estamos de passagem. Aqui estamos no caminho ou, mais propriamente, a caminho. O Manso e Humilde ensinou-nos isso com sua vida e suas palavras.

Jesus vivia em peregrinação por Israel. As indicações mais diretas a lugares ou cidades onde Jesus morou podem ser encontrados nos relatos de sua infância e juventude -Mateus, Marcos, Lucas e João coincidem ao apontar que Jesus morou em Nazaré, na Galileia. Mateus fala de um período no Egito, quando Jesus era bebê, em fuga da perseguição de Herodes.

Depois de adulto, nos anos de sua missão, vemos e lemos Jesus andando por Israel, na Galileia e na Judeia, em passagens pela Samaria e com uma andança pela região de Tiro e Sidônia, no atual Líbano. O próprio Jesus diz-nos: “As raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8, 20).

Ele refere-se sempre à sua verdadeira casa como a casa do Pai. O Evangelho de João está pontilhado por tal referência. Assim foi Jesus, assim somos. Peregrinos. Esta concepção presente desde os primeiros tempos. A Carta a Diogneto, um dos escritos cristãos mais primitivos, datado do ano 120, já esta impregnado por este sentido de vida-peregrinação: “Habitam pátrias próprias, mas como peregrinos: participam de tudo, como cidadãos, e tudo sofrem como estrangeiros. Toda a terra estrangeira é para eles uma pátria e toda a pátria uma terra estrangeira”. Se quiser, leia aqui a íntegra da Carta a Diogneto.

Mas não é o cristianismo que fundou esta ideia de vida peregrina. Na Bíblia, a palavra hebraica ashréi aparece 45 vezes. Deriva da raiz ashar, que tem como sentido fundamental a marcha, a caminhada, o passo do homem na estrada que conduz ao Senhor. O sentido foi alterado em na tradução que teria sido feita do hebraico para o grego pelos judeus entre o terceiro e o primeiro século e que ficou conhecida como Septuaginta (clique aqui para saber um pouco sobre essa tradução). Na versão grega, ashréi se tornou makárioi  (feliz, bendito, bem-aventurado), e foi assim que passou para as traduções cristãs, perdendo um pouco desse sentido original de vida a caminho.

O salmo 1 abre-se nas traduções correntes com: “Feliz aquele que não anda em companhia dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores nem se assenta na reunião dos zombadores”.  Trata-se menos de um salmo de felicitação que de uma evocação acerca do homem que, em pé, no caminho, procura Deus. A tradução adaptada deu um colorido hedonista e de uma placidez que não pertencem nem ao judaísmo nem ao cristianismo. Não procuramos “felicidade”, mas a Deus. E para isso, colocamo-nos no caminho (a partir André Chouraqui, A Bíblia, Louvores I, Imago, Rio, 1998, p. 40; vale a pena ver também o belo livro de Ivone Brandão de Oliveira, Caminhar para o Reino com as bem-aventuranças, Paulinas, São Paulo, 2005).

O caminho como centro da vida está incrustado no poético saltério, o livro dos 150 salmos na Bíblia. Os salmos 120 a 134 formam um pequeno livreto, um saltério dentro do saltério. Ele levaram historicamente o nome de “cânticos de subida”. Subida a Jerusalém, cidade sagrada sobre o monte; subida, segundo o Talmude, dos 15 degraus do Templo (são 15 estes salmos); caminhada do cativeiro da Babilônia à liberdade em Jerusalém, ou na peregrinação para as festas da Páscoa, Pentecostes e das Tendas, que reuniam Israel periodicamente –os mais pobres não tinham recursos para todas as peregrinações e iam uma vez por ano e, em muitos casos, apenas uma vez na vida. Subir a Jerusalém era entrar em comunhão com Deus para o povo judeu e, ainda hoje, o percurso até lá, para os judeus crentes, tem caráter deste encontro.

“Que alegria quando me disseram: ‘Vamos à casa do Senhor!’” é o canto do salmista convidado ao caminho, na abertura do salmo 122 (121). Caminho pra casa.

Mesmo fora do “pequeno saltério da subida”, este sentido da vida como peregrinação aparece como uma escolha de estar sob a luz do Senhor. No mais longo dos salmos, o 119 (118), uma coleção poética que reúne escuta e seguimento à palavra de Deus, sobre a vida a partir da lei do amor, há dois versículos que conjugam exatamente a caminhada com a escuta e o seguimento da palavra da Deus:

“Desviei meus pés de todo mau caminho

para guardar tua palavra (101)

Tua palavra é uma lâmpada para meus passos

e uma luz para meus caminhos (105)”

Mas este sentido de vida peregrina não está restrito ao Saltério, no Primeiro Testamento. O profeta Isaías já apontava:

“Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos e assim andemos nas suas veredas” (Is 2, 3b).

Um dos Evangelhos, o de Lucas, conhecido como “Evangelho dos pobres”, costura a vida de Jesus em torno da caminhada, ou subida a Jerusalém. É o próprio Deus feito homem que faz e aponta o caminho para casa como a dinâmica da vida:

  • Na infância, Jesus sobe ao Templo levado por José e Maria; lá Simeão profetiza sobre o Menino (Lc 2,22-40).
  • Na transição de jovem para adulto, aos 12 anos, mais uma vez, sobe com os pais para a festa da Páscoa e se deixa ficar no Templo para ouvir e falar com os sábios (Lc 2,41-52);
  •  Em sua missão, depois de pregar, abrir os olhos e ouvidos, ensinar a andar, cultivar amor compaixão, Jesus inicia a longa subida a Jerusalém. Todo o Evangelho de Lucas, a partir do capítulo 9, é a caminhada à cidade sagrada com seus discípulos, para a entrega final e integral cumprimento do projeto de amor de seu Pai.

 

***

Saímos de casa (o Infinito, o útero de Deus) e para casa voltaremos. Mas não seremos os mesmos de quando saímos. É assim, quando saímos da casa de nossos pais, não é? Saímos jovens (a maioria) e, ao voltarmos, muitos anos depois, ao visitá-los, muito tempo passado, somos os mesmos mas, ao mesmo tempo, somos outra pessoa. Estamos fazendo o caminho de volta para Casa. Para os cristãos, a maneira, o modo como re-habitaremos a Casa do Pai será construído e desenhado aqui na Terra, ao longo do caminho.

São Paulo escreve o mais belo hino ao amor em sua primeira Carta aos Coríntios (1Cor 13, 1-13). Muitas pessoas já o ouviram, cantado por Renato Russo, mas não têm ideia que o texto é deste hino de São Paulo (clique aqui se quiser ouvir Renato Russo). Nele, Paulo, nos indica como é o caminho do crescimento: “No presente vemos por um espelho e obscuramente; então veremos face a face”.

É no caminho que vamos conhecendo-nos, no cair-levantar dos impasses, rupturas, falhas, pecados, laços, contatos, encontros e desencontros do caminho que nos conheceremos –e, para os cristãos, este caminho do conhecimento de si próprio e dos outros tem um nome: amor a Deus e ao próximo e abandono de si próprio.

É o supremo paradoxo: o caminho antecipa a chegada em Casa e, para tanto, é preciso morrer ao longo do caminho; com isso, na centralidade do amor, que é o encontro/morte do eu, morte e vida eterna convergem integralmente. São Paulo fala deste paradoxo na carta aos Filipenses (Fil 1, 21-24): “Pois para mim a vida é Cristo e a morte, lucro. Entretanto, se o viver no corpo ainda me permite um trabalho frutuoso, não sei o que escolher. Sou pressionado de dois lados. Por um lado, desejo partir para estar com Cristo, o que é muito melhor. Por outro, quisera permanecer neste mundo, o que é mais necessário para vós”.

Nesta revelação de mim mesmo na medida em que me reduzo diante da completude do Altíssimo que é o Tudo, antecipo a chegada, como diz o italiano Divo Barsotti, autor de sensibilidade e profundidade: “Ao processo da revelação corresponde, no homem, o processo de uma fé que, tornando-se sempre mais viva e luminosa, de certo modo antecipa, na contemplação, a própria vida no Céu”.[1]

Esta antecipação do chegar em Casa, que é fruto e presença no caminho, foi apontada por Mestre Eckhart, místico dominicano do final do século XIII e início do XIV, que ficou anos colocado à margem na Igreja e hoje tem sua obra recuperada e valorizada: “devemos então, na eternidade, ser elevados acima do tempo. Na eternidade, todas as coisas estão presentes. O que é acima de mim, me é tão próximo e presente como aquilo que é aqui, junto a mim; e lá receberemos de Deus o que dele devemos ter”.[2]

Um grande autor da espiritualidade cristã do silêncio, o monge trapista Thomas Merton, que escreveu uma vasta obra em meados do século 20, formulou com beleza o caminho para Casa. No texto, refere-se ao monge, mas ele pode ser lido por todo cristão, por cada qual em seu trajeto pessoal: “O paraíso ainda não é o céu. O paraíso não é a meta final da vida espiritual. É, em realidade, apenas uma volta ao início. É começar de novo. O monge que conseguiu atingir a pureza do coração e recuperou, em certa medida, a inocência perdida por Adão, ainda não terminou a viagem. Está apenas pronto para iniciá-la. Está pronto para um novo trabalho ‘que olho nenhum jamais viu, ouvido nenhum jamais ouviu, nem coração nenhum conseguiu conceber’. A pureza do coração é o fim intermédio da vida espiritual. O fim último, porém, é o Reino de Deus”[3] A recuperação do paraíso, para Merton, “’é a descoberta do Reino de Deus dentro de nós’, conforme a expressão dos Evangelhos, no sentido que sempre foi empregada pelos místicos cristãos”. (p.120)

A ideia de Casa está assentada num diálogo de Jesus com seus discípulos, no Evangelho de João: “Não se perturbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois eu vou preparar-vos um lugar. Quando tiver ido e tiver preparado um lugar para vós, voltarei novamente e vos levarei comigo para que onde eu estiver, estejais também vós” (Jo 14, 1-3).

Casa, céu, paraíso, todas são expressões utilizadas para designar este “lugar”. Mas nenhuma foi mais presente a Jesus em sua caminhada que a expressão Reino de Deus. Um lugar, um novelo relacional, uma promessa, um tempo fora do tempo, um para além agora antecipado, “experenciado”. É o que ele afirma num diálogo crucial com os fariseus no Evangelho de Lucas: “Naquele tempo, os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Jesus respondeu: ‘O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: ‘Está aqui’ ou ‘Está ali’, porque o Reino de Deus está entre vós’” (Lc 17, 20-21). Este anúncio do Reino marca o início da missão de Jesus logo no início do Evangelho de Marcos, quando ele anuncia: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15).

Voltar para Casa é então ansiar pela chegada ao Reino e, ao mesmo tempo, pela chegada do Reino. A Casa-Reino ocupa então o centro da vida cristã, que, numa definição clássica, é ao mesmo tempo “já” e “ainda não”. Mas que se constrói no espaço cotidiano da vida. Dom Pedro Casaldáliga, bispo-profeta como poucos, foi um dos que de maneira mais profunda e poética expressou esta ideia:

“O reinocentrismo é a chave de nossa espiritualidade, como o é do próprio ser da Igreja. ‘Só o Reino de Deus é absoluto. Todo o resto é relativo’, proclama categoricamente o Papa Paulo VI na Evangelii Nutiandi (nº 8). Pelo Reino e para o Reino ela existe, como para o Reino Deus se fez Jesus, e para o Reino Jesus viveu, morreu e ressuscitou. ‘Venha o teu Reino’ (Mt 6,10) é a paixão e o programa de Jesus de Nazaré. (...) Um sério exame de consciência constante, que é prática canonizada na mais legítima espiritualidade cristã, obriga-nos a rever sempre à luz do Reino nossa própria espiritualidade: minha vida, minha oração, minha família, meu trabalho, minha ação política, minha pastoral, meu lazer... estão orientados ao Reino, motivados pelo Reino, sustentados pela causa/objetivo do Reino?”[4]

A busca e construção-recepção do Reino no dia a dia está no centro das formulações da teologia latino-americana que ficou conhecida como Teologia da Libertação e foi perseguida, difamada e acusada no próprio interior da Igreja por anos a fio –e está sendo finalmente resgatada por Francisco. Um de seus primeiros e mais relevantes formuladores, o padre dominicano peruano Gustavo Gutierrez, num ensaio belíssimo, intitulado “Onde dormirão os pobres?” capturou a essência deste reinocentrismo em poucas palavras: “Há no cerne do Sermão da Montanha um versículo que de certa forma o resume: ‘em primeiro lugar busquem o seu Reino e a sua justiça e tudo o mais lhes será dado em acréscimo’ (Mt 6,33)”.[5]

O Reino tem uma justiça própria, de fim às opressões, ao massacre dos pobres, às dominações, às explorações sociais e individuais, um tempo-lugar de plenitude que nos é negada por nossos limites individuais e pela dinâmica da sociedade.  

É um caminho, meta, objetivo e, ao mesmo tempo, modo de ser que acontece cotidianamente em nossa vida individual e na teia relacional que nos marca e conforma. Nós, cristãos, pensamos-fazemos este caminho cada um e cada uma, em suas famílias, no universo do estudo, do trabalho, nas pequenas comunidades a que nos integramos, na sociedade e particularmente na comunidade chamada Igreja, que está muito além de sua hierarquia. É o que afirmou o Papa Francisco, atualizando o centro da revolução do Vaticano II. Disse Francisco numa audiência geral, em 15 de outubro de 2014: “Então, eis quem é a Igreja: ela é o povo de Deus que segue o Senhor Jesus e que, dia após dia, se prepara para o encontro com Ele” – se quiser, leia aqui a íntegra do discurso.

Francisco alcançou-nos com a beleza desta dinâmica individual-comunitária-eclesial (de ekklesia, assembleia) no documento que já se tornou referencial de seu papado, a Encíclica “Laudato Si - sobre o cuidado da casa comum”, lançada em 24 de maio de 2015 (a íntegra da encíclica está aqui). Escreveu o Papa:

“243. No fim, encontrar-nos-emos face a face com a beleza infinita de Deus (cf.1 Cor13, 12) e poderemos ler, com jubilosa admiração, o mistério do universo, o qual terá parte conosco na plenitude sem fim. Estamos a caminhar para o sábado da eternidade, para a nova Jerusalém, para a casa comum do Céu. Diz-nos Jesus: ‘Eu renovo todas as coisas’ (Ap 21, 5). A vida eterna será uma maravilha compartilhada, onde cada criatura, esplendorosamente transformada, ocupará o seu lugar e terá algo para oferecer aos pobres definitivamente libertados.

244. Na expectativa da vida eterna, unimo-nos para tomar a nosso cargo esta casa que nos foi confiada, sabendo que aquilo de bom que há nela será assumido na festa do Céu. Juntamente com todas as criaturas, caminhamos nesta terra à procura de Deus, porque, ‘se o mundo tem um princípio e foi criado, procura quem o criou, procura quem lhe deu início, aquele que é o seu Criador’ (Basílio Magno, Hom. in Hexaemeron, 1, 2, 6: PG 29, 8). Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança.”

***

Fazemos este caminho no mundo, entre misérias, tristeza, sofrimento, dores; mas, ao mesmo tempo, entre alegrias, riso de crianças, refeições em comum, amizades, amores e amor que nos conferem “gosto de Reino”. Frei Prudente Nery, um franciscano capuchinho, falecido ainda jovem em 2009, formulou este paradoxo com uma beleza rara:

“É inegável: há, no mundo de nossas experiências, muitas palavras, pesadas como chumbo, que nos abatem e magoam; outras, afiadas como navalha, que nos rasgam a alma e outras tantas que apenas nos estorvam pelo seu vazio de sentido, apesar de toda turbulência verbal. Há coisas que nada nos dizem. Há paisagens áridas, encontros fúteis e relações que ligam nada a coisa alguma.

Mas há também neste mundo alguns instantes, raros certamente, em que, descerrando quase o véu de seu inviolável mistério, nos visita o absoluto sentido de todas as coisas. O instante e o lugar onde isto se der ser-nos-ão para sempre preciosos, como um pedaço do céu, um reino de felicidades, por ter sido o lugar do encontro do que, apaixonadamente, tanto buscávamos.

E então saberemos: o mundo não é apenas o irremediável aí de nosso ser, ele é também o lugar dos primeiros acenos e encontros de um eterno amor. Este mundo nunca deixará de ser finito, banal, profano e, em si mesmo, desimportante... tenda precária, imprópria e indigna para aquele que imaginamos nas alturas inalcançáveis ou nas profundezas impenetráveis, mas o único lugar em que ora é possível a Deus, ainda que humildemente retraído, estar junto dos homens e aos homens estarem perto de Deus”.[6]

Mas a promessa do Reino, a chegada em Casa é algo que não conseguimos alcançar em nossa finitude. Os cristãos acreditamos que há muito mais, algo inalcançável por nossas formulações, ideologias, arquiteturas. Karl Rahner, um teólogo seminal do século 20, precisou esta concepção explicável apenas à luz da fé:

“Esta ‘pátria’ não pode ser simples prorrogação da experiência presente, ‘o amanhã que vive no hoje’; se assim fosse, estariam faltando nela fantasia e novidade e ela ficaria reduzida a uma simples dedução do desconhecido a partir do que é calculável e conhecido. O ocaso das ideologias entendidas como visões totais da vida e do mundo não dará lugar a presunções absolutas da razão. O niilismo pós-moderno não dá crédito a projeções do desejo. A ‘pátria’ procurada não pertence ao ‘futuro relativo’ que pudéssemos prever hoje e realizar amanhã nem está em nossas mãos, da mesma forma como a expectativa das pequenas ou grandes coisas que o homem pode com fundamento esperar de si. A ‘pátria’ como horizonte final pertence ao mundo do advento, àquele ‘futuro absoluto’ que ‘não é apenas a meta da nossa caminhada, porém, mais do que isso, vem por própria iniciativa ao nosso encontro... é o não evolutivo, o não-projetado, o não-disponível, com a incompreensibilidade e infinitude que lhe são inerentes..., o imponderável sempre desconhecido que não vive do nosso poder, porque ele mesmo é poderoso.”[7]  

A palavra “fim” no sentido de encerramento da vida perdeu a razão de ser para nós cristãos. Vivemos um “não acabar” com um fim-meta, ver a face de Deus. Vislumbramos, enquanto vivo, mas não vemos. Mas quanto mais vislumbramos mais ansiamos por ver, o que acontecerá um dia. Esta é a grande promessa de nossa vida. Quando? Não sei. Mas intuo que, de vislumbre em vislumbre, só verei o rosto de Deus mesmo quando for amorosamente abraçado pela irmã morte -num abraço não de fim-acabou, fim-escuridão, mas de fim-meta, fim-luz, para a realização do grande, do único desejo, voltar para Casa, chegar ao Reino, habitar no seio do Pai e ver sua face.

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Este blog reúne meditações que realizei nos últimos anos e a produção que for gotejando no dia a dia. Na medida do possível irei postando ensaios, artigos, vídeos, conteúdos que me chegarem e que considere legal partilhar.

A foto do Cordeiro, que abre o blog, é um vitral da Igreja do Mosteiro do Encontro, de Mandirituba, no interior do Paraná. O vitral é de autoria do artista sacro Cláudio Pastro. Lá, com a comunidade de irmãs, que vivem o caminho para Casa de maneira inspiradora, conheci um grande amor de minha vida, madre Chantal, que sem que eu merecesse tornou-se amiga e orientadora.


[1] BARSOTTI, Divo, Monaquismo e Mística, Edições Subiaco, Juiz de Fora, 2009, p. 83

[2] ECKHART, Mestre, Sermões Alemães – vol 1, Editora Universitária São Francisco, Bragança Paulista, Vozes, Petrópolis, 2009, p. 61

[3] MERTON, Thomas, A recuperação do Paraíso, in Zen e as Aves de Rapina,  Cultrix, São Paulo, 1987, p. 145.

[4] CASALDÁLIGA, Pedro, Nossa Espitirualidade, Paulus, São Paulo, 1998, pp 26-27

[5] GUTIERREZ, Gustavo,  Onde dormirão os pobres?, Paulus, São Paulo, 2003, p. 46

[6] NERY, Prudente, A Vida Consagrada à luz do Mistério trinitário, in Convergência 31/294, Jul-Ago 1996, pp. 351-353.

[7] RAHNER, Karl, Il concetto di futuro: considerazioni frammentarie di um teólogo, in Id., Nuovi Saggi III, Roma, 1969, pp 621s. Cf todo o artigo: 619-626)”, in FORTE, Bruno, Teologia da História –ensaio sobre a revelação, o início e a consumação, Paulus, São Paulo, 1995, pp. 349/350